quinta-feira, 10 de março de 2011

Oficinas de Fechamento do Prêmio Microprojetos de Cultura com Jovens Atikum

Breve relato sobre o Povo Atikum e as Oficinas Temáticas de Arte e Cultura
Microprojetos de Cultura
O Povo Atikum é uma etnia indígena que tem seu território entre o Sertão Central e o Sertão de Itaparica, no Estado de Pernambuco, abrangendo os municípios de Salgueiro e Carnaubeira da Penha, composto por 47 Aldeias e uma população de 5.256 índios aldeiados, ou seja, morando na própria terra.
Identificamos como uma das principais causas de desagregação social do Povo Atikum, a dificuldade em se repassar à juventude as bases culturais e de religiosidade étnica, através do conhecimento da sua história e tradições. Isto se potencializa ainda mais com a influência funesta da grande mídia, principalmente através da televisão, que criam uma realidade totalmente diferente daquela em que vivem, impondo valores que não condizem com sua forma de vida e sua visão do mundo, junto a uma ausência de atividades e ações que resgatem os valores da ancestralidade. Assim, idéias consumistas e individualistas, destroem as dinâmicas sociais de base coletiva, que são próprias destas comunidades, interferindo em seus processos produtivos, sociais, culturais e espirituais. Além disso os textos "oficiais" disponíveis sobre a história e cultura deste povo não condizem com o que eles sabem e pensam sobre si mesmos e sobre seus antepassados, tendo sobre seu nome o peso de não possuir lugar de fala, mas de quase sempre serem citados de forma depreciativas, associados a plantio de maconha, a violência e a desaculturação, inclusive em determinados momentos com insinuações de que nem mesmo seriam índios, sendo isso declarado em textos acadêmicos e documentos de pesquisas etnicas, sócio-economicas.
Mas existem alguns grupos de jovens que, tendo a consciência de sua identidade cultural e da importância desta para o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento de sua cultura e dos laços familiares e sociais, desenvolvem trabalhos voltados para atividades culturais que trazem como base suas ancestralidades, sua história e suas tradições, mas tudo isto de forma limitada, mesmo com todo apoio que recebem de lideranças. É o caso do Grupo de Jovens Kyrimbaus de Atikum, que desenvolvem trabalhos educativos, de inclusão sóciodigital e principalmente artísticos e culturais que, sem perderem suas referências conseguem inovar com a dinâmica própria das tradições culturais, criando e apresentando peça teatral, propondo novas coreografias para as toantes do Toré Atikum, na empolgante Pisada. Foi assim que se tornaram ganhadores de prêmios como o “Cultura Indígena” e foram contemplados com o projeto de Ponto de Cultura, o qual está proporcionando ao grupo o acesso à tecnologia da informação, equipamentos e, futuramente, à internet (ainda não possuem sinal de telefonia celular nem internet na localidade).
Foi desta forma que, coletivamente, decidimos investir nas práticas culturais, no fortalecimento de ferramentas artísticas, musicais e também de conhecimento dos processos históricos e atuais sobre suas realidades internas e ainda de como são vistos pelo mundo, através da internet.
A oportunidade veio com o edital de Microprojetos de Cultura, quando nos propomos a desenvolver através de Oficinas Temáticas, "habilidades e conhecimentos, a partir da realização de Oficinas de Musicalidade, Confecção de Instrumentos Musicais e Cultura Popular (A formação da identidade cultural do povo brasileiro, a partir das manifestações culturais pernambucanas),  para os jovens que participam do GRUPO DE JOVENS KYRIMBAUS de ATIKUM, o qual faz parte dos quadros a AIPAPP - Associação Indígena dos Produtores Agrícolas do Poço da Pedra , bem como outros jovens, entre 17 e 29 anos, do Povo Atikum que estejam interessados".
A ação faz parte de iniciativa do GOVERNO FEDERAL, MINISTÉRIO DA CULTURA, PROGRAMA MAIS CULTURA, FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES, BANCO DO NORDESTE DO BRASIL, INSTITUTO NORDESTE CIDADANIA e FUNDAÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO que possibilitou a realização do projeto através do Edital de julho de 2009.
Assim, visamos potencializar as atividades que os jovens já realizavam, além de ampliar suas ações a partir de um maior domínio de conhecimento e das novas ferramentas, como a introdução de instrumentos musicais percussivos e de elementos musicais como o coco de toré.
Horas de teorias, discussões, precederam e formataram tanto o projeto como as próprias oficinas que se realizaram antes mesmo da aprovação e continuaram depois da assinatura do contrato e de recebido o valor do prêmio Mais Cultura.
Proposta aceita, prêmio concedido, contrato assinado! Profissionais escolhidos e se afinando ao projeto, Nilton Junior (musico, produtor e diretor musical), foi enviado sozinho para conhecer os jovens e seus trabalhos e também para ser conhecido por eles. Isso foi fundamental para estabelecermos o que realmente faríamos nas oficinas práticas de musicalidade, confecção de intrumentos, dança, canto e improvisação. Tudo acertado com o músico percussionista e facilitador Guga (Gutemberg - do Quarteto Olinda).
Em outubro, nos dias 16 e 17, realizamos 23 horas de trabalhos. Foram momentos de total imersão, de muita participação e de uma verdadeira viajem por ancestralidades e encontros, quando percebemos que a música apenas se reencontrava com seus animadores, estava tudo ali, a brasa precisava apenas ser ventilada, e após um leve sopro voltou a ser chama, a emoção tomou conta do ambiente e, ao final, várias pessoas daquela aldeia e de outros locais, vinham nos observar, dançar e cantar juntos, em passos e cantos que perdiam-se no tempo e no espaço.
Agora, estamos retornando para mais uma atividade com o grupo de jovens. Desta feita iremos rever o que ficou da musicalidade e do uso dos instrumentos lá deixados, para formarmos um espetáculo a ser apresentado à toda comunidade que se fizer presente. Estaremos ainda apresentando uma, não muito agradável, pesquisa na internet sobre o que se fala sobre o Povo Atikum, o que já foi tema de uma de nossas oficinas temáticas sobre Cultura Brasileira e Formação da Identidade Cultural, mas como a maioria ainda não acessa a internet. apresentaremos em power point as principais páginas que surgem nos sites de busca sobre Povos Indígenas, quando digitamos Atikum. Uniremos a isso atividades em audiovisual, também conforme promovemos em nossa primeira pficina temática. Desta vez mostrando imagens destes quase quatro anos de construção de atividades, onde os jovens Atikum e suas lideranças da Aldeia do Poço da Pedra, demonstram sempre mais sua ancestralidade, sua força enraizada nas tradições e na essência dos filhos de Umã.
Desta forma consideramos mais do que alcançada nossas expectativas. Vencemos dificuldades que por vezes pareciam intransponíveis, superamos inclusive a falta de parcerias do governo estadual que pareceu em determinados momentos que inviabilizariam por completo a realização do projeto. Além das dificuldades impostas pelo período eleitoral que nos impediu de realizar outras parcerias e ações.
Estamos, na verdade, indo para este encontro numa emoção de fazermos um fechamento do projeto, podendo demonstrar para a comunidade Atikum e para os convidados que lá estarão, como é fundamental para aqueles jovens o investimento em suas práticas culturais, no fortalecimento de seus conceitos de mundo, de suas tradições, de sua espiritualidade.
Duda Quadros

6 comentários:

Isabelle Câmara disse...

me leva contigo da px vez? acho que indo daqui fica mais fácil!

Duda Quadros disse...

Claro Isabelle, seria muito bom para os jovens ter contato com uma profissional da comunicação que seja da área jornalística e de mobilização social. Assim que tivermos alguma ação te avisarei com certeza!

Adriana Oliveira disse...

Oi Duda!ninguêm melhor pra contar a nossa história,do que quem vive a história!Nós!os próprios!os atikuns!Um abraço!Adriana Atikum!

Duda Quadros disse...

Com certeza Adriana,e este espaço é exatamente para isso. E agora é a hora de vocês conquistarem os espaços que merecem, de contarem sua história e de construirem seus caminhos. Os Atikuns estão marcados para sempre em minha vida e sinto-me muito honrado em ter podido compartilhar estes momentos com o vocês. Um grande e fraterno abraço!

jeane atikum disse...

duda parabens pela motivação que nos proporcionou atraves do microprojeto, agora sim atikum vai mostrar quem realmente é atikum. um abraço e até a próxima. já enviei a prestação de contas, agora é aguaudar o resultado. fui jeane atikum.

Duda Quadros disse...

Jeane, de minha parte eu agradeço pela oportunidade de poder compartilhar tantos momentos com vocês. Foram tão fortes e possibilitaram para mim várias ovas fontes de conhecimentos. A presença da força dos antepassados Atikum, a ligação com Umã e como a consciência da identidade consegue suportar até mesmo a força da desaculturação que se é imposta pela industria da cultura de massa, pela destruição dos valores étnicos... Nada disso consegue destruir a força contida nas tradições da ciência contida na Jurema Sagrada, nas Ciências do Índio. Como gosto de dizer, afinal de quem são as pinturas ruprestes que existem no território??
Espero vê-los em breve.
Abraços a todos jovens guerreiros Atikum!