Breve relato sobre o Povo Atikum e as Oficinas Temáticas de Arte e Cultura
Microprojetos de Cultura
O Povo Atikum é uma etnia indígena que tem seu território entre o Sertão Central e o Sertão de Itaparica, no Estado de Pernambuco, abrangendo os municípios de Salgueiro e Carnaubeira da Penha, composto por 47 Aldeias e uma população de 5.256 índios aldeiados, ou seja, morando na própria terra.
Identificamos como uma das principais causas de desagregação social do Povo Atikum, a dificuldade em se repassar à juventude as bases culturais e de religiosidade étnica, através do conhecimento da sua história e tradições. Isto se potencializa ainda mais com a influência funesta da grande mídia, principalmente através da televisão, que criam uma realidade totalmente diferente daquela em que vivem, impondo valores que não condizem com sua forma de vida e sua visão do mundo, junto a uma ausência de atividades e ações que resgatem os valores da ancestralidade. Assim, idéias consumistas e individualistas, destroem as dinâmicas sociais de base coletiva, que são próprias destas comunidades, interferindo em seus processos produtivos, sociais, culturais e espirituais. Além disso os textos "oficiais" disponíveis sobre a história e cultura deste povo não condizem com o que eles sabem e pensam sobre si mesmos e sobre seus antepassados, tendo sobre seu nome o peso de não possuir lugar de fala, mas de quase sempre serem citados de forma depreciativas, associados a plantio de maconha, a violência e a desaculturação, inclusive em determinados momentos com insinuações de que nem mesmo seriam índios, sendo isso declarado em textos acadêmicos e documentos de pesquisas etnicas, sócio-economicas.
Mas existem alguns grupos de jovens que, tendo a consciência de sua identidade cultural e da importância desta para o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento de sua cultura e dos laços familiares e sociais, desenvolvem trabalhos voltados para atividades culturais que trazem como base suas ancestralidades, sua história e suas tradições, mas tudo isto de forma limitada, mesmo com todo apoio que recebem de lideranças. É o caso do Grupo de Jovens Kyrimbaus de Atikum, que desenvolvem trabalhos educativos, de inclusão sóciodigital e principalmente artísticos e culturais que, sem perderem suas referências conseguem inovar com a dinâmica própria das tradições culturais, criando e apresentando peça teatral, propondo novas coreografias para as toantes do Toré Atikum, na empolgante Pisada. Foi assim que se tornaram ganhadores de prêmios como o “Cultura Indígena” e foram contemplados com o projeto de Ponto de Cultura, o qual está proporcionando ao grupo o acesso à tecnologia da informação, equipamentos e, futuramente, à internet (ainda não possuem sinal de telefonia celular nem internet na localidade).
Foi desta forma que, coletivamente, decidimos investir nas práticas culturais, no fortalecimento de ferramentas artísticas, musicais e também de conhecimento dos processos históricos e atuais sobre suas realidades internas e ainda de como são vistos pelo mundo, através da internet.
A oportunidade veio com o edital de Microprojetos de Cultura, quando nos propomos a desenvolver através de Oficinas Temáticas, "habilidades e conhecimentos, a partir da realização de Oficinas de Musicalidade, Confecção de Instrumentos Musicais e Cultura Popular (A formação da identidade cultural do povo brasileiro, a partir das manifestações culturais pernambucanas), para os jovens que participam do GRUPO DE JOVENS KYRIMBAUS de ATIKUM, o qual faz parte dos quadros a AIPAPP - Associação Indígena dos Produtores Agrícolas do Poço da Pedra , bem como outros jovens, entre 17 e 29 anos, do Povo Atikum que estejam interessados".
A ação faz parte de iniciativa do GOVERNO FEDERAL, MINISTÉRIO DA CULTURA, PROGRAMA MAIS CULTURA, FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES, BANCO DO NORDESTE DO BRASIL, INSTITUTO NORDESTE CIDADANIA e FUNDAÇÃO DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO que possibilitou a realização do projeto através do Edital de julho de 2009.
Assim, visamos potencializar as atividades que os jovens já realizavam, além de ampliar suas ações a partir de um maior domínio de conhecimento e das novas ferramentas, como a introdução de instrumentos musicais percussivos e de elementos musicais como o coco de toré.
Horas de teorias, discussões, precederam e formataram tanto o projeto como as próprias oficinas que se realizaram antes mesmo da aprovação e continuaram depois da assinatura do contrato e de recebido o valor do prêmio Mais Cultura.
Proposta aceita, prêmio concedido, contrato assinado! Profissionais escolhidos e se afinando ao projeto, Nilton Junior (musico, produtor e diretor musical), foi enviado sozinho para conhecer os jovens e seus trabalhos e também para ser conhecido por eles. Isso foi fundamental para estabelecermos o que realmente faríamos nas oficinas práticas de musicalidade, confecção de intrumentos, dança, canto e improvisação. Tudo acertado com o músico percussionista e facilitador Guga (Gutemberg - do Quarteto Olinda).
Em outubro, nos dias 16 e 17, realizamos 23 horas de trabalhos. Foram momentos de total imersão, de muita participação e de uma verdadeira viajem por ancestralidades e encontros, quando percebemos que a música apenas se reencontrava com seus animadores, estava tudo ali, a brasa precisava apenas ser ventilada, e após um leve sopro voltou a ser chama, a emoção tomou conta do ambiente e, ao final, várias pessoas daquela aldeia e de outros locais, vinham nos observar, dançar e cantar juntos, em passos e cantos que perdiam-se no tempo e no espaço.
Agora, estamos retornando para mais uma atividade com o grupo de jovens. Desta feita iremos rever o que ficou da musicalidade e do uso dos instrumentos lá deixados, para formarmos um espetáculo a ser apresentado à toda comunidade que se fizer presente. Estaremos ainda apresentando uma, não muito agradável, pesquisa na internet sobre o que se fala sobre o Povo Atikum, o que já foi tema de uma de nossas oficinas temáticas sobre Cultura Brasileira e Formação da Identidade Cultural, mas como a maioria ainda não acessa a internet. apresentaremos em power point as principais páginas que surgem nos sites de busca sobre Povos Indígenas, quando digitamos Atikum. Uniremos a isso atividades em audiovisual, também conforme promovemos em nossa primeira pficina temática. Desta vez mostrando imagens destes quase quatro anos de construção de atividades, onde os jovens Atikum e suas lideranças da Aldeia do Poço da Pedra, demonstram sempre mais sua ancestralidade, sua força enraizada nas tradições e na essência dos filhos de Umã.
Desta forma consideramos mais do que alcançada nossas expectativas. Vencemos dificuldades que por vezes pareciam intransponíveis, superamos inclusive a falta de parcerias do governo estadual que pareceu em determinados momentos que inviabilizariam por completo a realização do projeto. Além das dificuldades impostas pelo período eleitoral que nos impediu de realizar outras parcerias e ações.
Estamos, na verdade, indo para este encontro numa emoção de fazermos um fechamento do projeto, podendo demonstrar para a comunidade Atikum e para os convidados que lá estarão, como é fundamental para aqueles jovens o investimento em suas práticas culturais, no fortalecimento de seus conceitos de mundo, de suas tradições, de sua espiritualidade.
Duda Quadros


